As redes sociais são um novo espaço de educação perinatal
“Estamos falando de um Brasil onde muitas pessoas não têm saneamento básico,
mas possuem acesso a um smartphone”, disse diretora de agência de marketing

Em um estudo sobre a abordagem do parto em “Amor à Vida”, transmitida em 2013 pela Rede Globo, foi reparado que o parto era sempre abordado como uma enfermidade, estando ilustrados em cenas de perigo, fragilidade e morte das personagens. “Durante muitos anos percebi que quando uma personagem em uma telenovela não estava muito ‘bem’ na história, elas engravidavam e morriam tentando parir”, contou o engenheiro aposentado Sérgio Wagner (67), que destaca seu interesse pelas novelas brasileiras desde muito jovem.
Esse tipo de representação não é um caso isolado. Ao longo de décadas, o parto vaginal foi frequentemente retratado como “impossível” ou perigoso, enquanto as cenas de cesariana apresentavam mulheres impecavelmente arrumadas e tranquilas, reforçando no imaginário coletivo a ideia de que a cirurgia seria a opção mais segura e conveniente. “Quando descobri minha gestação, vieram diversas inseguranças na minha cabeça, mas a única certeza que eu tinha era que queria uma cesariana”, contou Priscila Alves (30), advogada e mãe do Gabriel. Ao ser questionada se acreditava que essa impressão vinha das novelas, ela hesitou. “Não sei dizer. As novelas brasileiras sempre estiveram presentes na rotina da casa onde cresci, mas não sei te dizer de onde veio isso.”
Priscila relatou que, após superar o momento em que descobriu sua gravidez, começou a ser impactada por informações no Instagram, a rede social que mais utilizava. Inicialmente, ela buscava conteúdos sobre maternidade de forma geral, mas logo começou a ser exposta a criadoras de conteúdo que traziam o cenário do parto no Brasil. “Foi quase automático. Um dia, me deparei com uma obstetra abordando por que o Brasil tem uma das maiores taxas de cesáreas do mundo, (...) e aquilo abriu meus olhos”, explicou. “Eu achava que o parto normal era algo ultrapassado e arriscado, mas percebi que, na verdade, é o contrário. Comecei a entender que eu tinha escolhas e que podia me preparar para isso”, desabafou.
“Mudei de opinião da água pro vinho, devo agradecer ao algoritmo”, comentou Priscila
O movimento de humanização do parto, descrito no estudo “O movimento pela humanização do parto no Brasil: trajetória e estratégias”, de Carmen Simone Grilo Diniz, surgiu como uma reação às práticas hospitalares que desrespeitam os direitos das mulheres e tornavam o parto um processo excessivamente medicalizado e impessoal. O foco da humanização é devolver ao parto o respeito à fisiologia natural do corpo da mulher, garantindo que intervenções médicas sejam feitas apenas quando realmente necessárias.
Nesse contexto, Jacqueline Montuori (46), professora da Faculdade Souza Marques e médica plantonista no Hospital Municipal Miguel Couto, reforça que o parto humanizado vai além de cenários idealizados e luxuosos. “Eu posso ter aquele quarto lindo, com luzinhas no teto e uma banheira, mas fazer um parto violento. Assim, como posso estar em uma sala simples, com uma maca, e ter um parto totalmente humanizado. Tudo depende de como você lida com as dores, queixas e inseguranças da paciente naquele momento”, disse.
O conhecimento de Priscila foi se ampliando durante a gestação, permitindo que ela entendesse melhor o que desejava. Em contrapartida, a advogada Mariana Salem (24) expressa uma visão oposta: o parto normal é uma experiência que se assemelha à "quase morte". Ela enfatizou que deseja ter registros bonitos desse momento especial, sem estar sofrendo. No entanto, ao ser questionada sobre os riscos associados ao parto normal, ela nega sua existência, refletindo a complexidade de opiniões e percepções sobre o tema.
“Acho que a população hoje está muito mais voltada para o momento do parto do que para a maternidade. Não importa a via que esse bebê vai nascer; se ele nascer bem e eu tiver um bebê saudável nos braços, vou ser uma mãe realizada”, disse Jacqueline. “Agora, o que adianta eu ter um parto ‘instagramável’ e minha criança ficar internada por dez, quinze dias, ou até um mês? Não faz sentido”, questionou.
A cirurgia cesariana é uma intervenção efetiva para salvar a vida de gestantes e bebês, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso porque, mesmo sendo um procedimento mais rápido do que o parto vaginal, ele é indicado se ocorrer uma “complicação de maior risco da própria gestante”, explicou o médico, doutor em Saúde Coletiva e professor titular da Faculdade de Medicina da UERJ e Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna (56).
Com isso e considerando que a cirurgia pode resultar, se feita sem necessidade, em complicações significativas ou permanentes, como sequelas ou morte materna ou do feto, a OMS indica que a taxa ideal de cesariana deve estar entre 10 a 15%, o que indica que a maioria dos partos não exige intervenção cirúrgica. Porém, no Brasil, a taxa de cesariana chegou a 59% em 2023, segundo tabela do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC).
Rebecca Figueiredo (25) é doula e educadora perinatal, dedicada a acolher gestantes e desmistificar o parto para centenas de pessoas que acompanham seu trabalho nas redes sociais. Para ela, a internet vai além de uma ferramenta de conexão: é uma ponte para transformar vidas. “A grande vantagem das redes sociais é que conseguimos alcançar muitas pessoas e levar informações de qualidade sobre o parto”, detalhou ela. “[É] levar informação para mulheres que, às vezes, não podem ter uma doula ou que vivem em lugares onde o acesso ao suporte é limitado”.
A doula já atendeu gestantes da Holanda que a encontraram pelo Instagram.“Elas buscavam minha ajuda para entender mais sobre o parto, porque nem fora do Brasil tudo é tão ideal como imaginamos. O parto, em qualquer lugar do mundo, é cercado por desafios e desinformação”, contou.
“Muitas mulheres chegam até mim pelo meu trabalho online, e isso só reforça como a educação perinatal pode fazer diferença”, disse Rebecca
A doula muitas vezes integra-se à equipe da ginecologista obstetra Fernanda Lehrer (34), que, desde 2020, utiliza o Instagram para criar conteúdos educacionais voltados para gestantes. Segundo a médica, essa é uma maneira eficaz de alcançar diferentes públicos. “Ao realizar ações de educação social nas redes, consigo atingir um público amplo. Essa é uma forma de contribuir socialmente com o nosso trabalho, ajudando a conscientizar as mulheres sobre os problemas do sistema em que vivemos e mostrando como elas podem superá-los da melhor maneira possível", explicou.
Flávia Braga (39), diretora da agência de marketing Betc Havas, enxerga o Instagram como uma ferramenta de informação. Para ela, as plataformas digitais deixaram de ser apenas espaços de socialização para se tornarem verdadeiros canais de educação. Essa mudança, segundo a publicitária, é especialmente relevante em um país com tantas desigualdades. “Estamos falando de um Brasil onde muitas pessoas não têm saneamento básico, mas possuem acesso a um smartphone. Nesse contexto, as redes sociais podem acelerar a circulação de informações e criar conexões poderosas com temas importantes”, refletiu.
A transição do consumo de conteúdo na internet, marcada pelo crescimento do papel dos influenciadores, é um ponto-chave para Flávia. A publicitária crê que, quando essas vozes são bem orientadas, elas têm a capacidade de transformar percepções sobre temas complexos, como a escolha da via de parto. A possibilidade de criar conteúdos dinâmicos e informativos oferece às redes um alcance e uma profundidade que os formatos tradicionais dificilmente alcançam. “O uso de influenciadores e criadores de conteúdo que dominam o tema é essencial para traduzir informações complexas de forma acessível. Isso é vital em temas como o parto, onde a educação tem o potencial de salvar vidas”, disse.
A publicitária comentou que o governo deveria investir no uso estratégico do Instagram para ampliar a divulgação de informações sobre saúde, com foco na redução das altas taxas de cesariana no Brasil. Para ela, campanhas publicitárias bem planejadas e segmentadas nas redes sociais poderiam alcançar um público muito maior, contribuindo para a educação e conscientização da população. "Assim como existem campanhas de vacinação, o governo tem o dever de investir em ações educativas”, pontuou. “Hoje, com a compra de mídia segmentada, é possível direcionar informações para públicos específicos de forma eficaz. Isso ajudaria a conscientizar mulheres e famílias sobre os benefícios do parto normal e os problemas associados à cesariana desnecessária", explicou.
Denizar defende que a educação é a base para reduzir as cesarianas desnecessárias no Brasil. Para ele, o processo educativo deveria começar cedo, sendo integrado às escolas desde o ensino médio, mas também é amplificado pela influência da mídia. O secretário destacou que populações mais educadas tendem a cuidar melhor da própria saúde porque estão mais informadas. “Quando a educação sobre parto normal e saúde materna começa cedo e é reforçada por informações de qualidade na mídia, criamos condições para escolhas mais conscientes e informadas”, observou.
“Hoje, a mídia, especialmente as redes sociais, pode ser uma aliada poderosa na educação de mulheres sobre saúde e parto, mas exige cautela”, ressaltou Denizar. “Assim como pode oferecer conhecimento de qualidade, também pode perpetuar mitos e desinformação”, alertou.
No vídeo, compartilhado na rede social TikTok, o ginecologista e obstetra, Luis Link, destaca três motivos para escolher a cesariana, sendo eles: a gestante ter inseguranças quanto o parto vaginal, as indicações do médico dependendo da posição do feto e da quantidade de cesarianas que a paciente já fez e caso o resultado dos exames ginecológicos apresentem que não seja a melhor opção fazer o parto normal. Tatiana Pignataro (31), ginecologista e obstetra, ressaltou que o bebê estando em posição pélvica não é indicação absoluta para a cirurgia, mas que poucos médicos são habilitados para realizar um parto vaginal nessa condição.
“Poucos médicos vão aceitar fazer o parto pélvico, por não se sentirem seguros (...) Então ‘ok’, mas não é uma contraindicação [o parto vaginal]”, explicou a médica. “Bebê muito grande depende do nível [de tamanho], mas mesmo assim a mulher pode tentar o parto vaginal, e caso não consiga, pode ser indicada uma cesária.” Sobre a paciente já ter duas cesarianas anteriores, a médica afirma que não é indicação absoluta de cesariana, mas, sim, uma gestação de risco”.
As redes sociais são um espaço acessível e dinâmico onde as pessoas podem compartilhar suas opiniões sobre praticamente qualquer assunto. No estudo “Análise de opiniões expressas nas redes sociais”, os autores destacam como essas plataformas se tornaram ambientes abertos para que as pessoas expressem suas opiniões sobre os mais diversos temas. Eles apontam que a interação constante entre os usuários transforma as redes em grandes repositórios de informação, refletindo pensamentos individuais e coletivos. Essa liberdade de expressão consolida as redes sociais como um importante reflexo da sociedade contemporânea, onde cada opinião tem o potencial de contribuir para conversas globais e até influenciar decisões.
Os vídeos acima, retirados da rede social TikTok, ilustram a liberdade de expressão nas redes sociais, evidenciando como esses espaços podem tanto fomentar debates relevantes quanto apresentar desafios no compartilhamento de informações de qualidade. “A internet é maravilhosa no aspecto de permitir acesso a informações sobre basicamente todos os assuntos, mas também expõe as pessoas a muita desinformação. Nós, que compartilhamos informações, precisamos reforçar que as nossas são baseadas em evidências, não tiramos da nossa cabeça”, brincou Rebecca, destacando que seu trabalho segue as recomendações da OMS.
Nesse contexto, a combinação entre educação formal e o acesso a conteúdos confiáveis na mídia se torna essencial para fortalecer a autonomia das gestantes. Denizar explicou que a Medicina Baseada em Evidências (MBE) reforça essa necessidade. "No passado, a medicina era fundamentada principalmente na experiência do médico, mas a evolução da ciência trouxe ensaios clínicos controlados que testam as intervenções, controlam os vieses e garantem maior precisão nos resultados”, disse. A MBE une essas evidências científicas à prática clínica, respeitando os valores e preferências dos pacientes para orientar decisões seguras e eficazes. Essa abordagem permite que informações de qualidade sustentem escolhas mais conscientes, tanto para a saúde materna quanto da fetal. “Uma gestante bem informada, seja na escola ou pelo acesso à mídia, tem maior capacidade de questionar práticas inadequadas e buscar o que é mais seguro para ela e seu bebê”, concluiu o secretário.