A enfermeira obstétrica e a doula são bem-vindas no parto
“Por mais que tenha dor, não significa que precise ser sofrido”, comenta a doula

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Engana-se quem acredita que o médico é a única figura essencial para um bom acompanhamento do pré-natal e para uma assistência de qualidade durante o parto. Desde 1990, os países que mais avançaram na redução da mortalidade materna — com índices que variam de 2% a 5% ao ano — alcançaram esse feito ao incorporar enfermeiras obstétricas e obstetrizes na assistência ao parto e nascimento.
As enfermeiras obstétricas, especialmente as formadas por programas de residência, têm sua prática fundamentada em conhecimentos que complementam, e não competem, com a formação médica. Enquanto os médicos são treinados para intervenções, a enfermagem obstétrica concentra-se em assistir partos normais de evolução fisiológica, acompanhando o neonato e promovendo um modelo assistencial focado na mulher.
“Muitos ginecologistas obstetras optam pela cesariana pensando na sua própria segurança em executar o trabalho da forma mais prática possível, da forma mais segura para ele. Porque nós, médicos, aprendemos na medicina a intervir. E essas são as práticas que fazem com que o trabalho dele seja mais seguro na cabeça dele”, explicou a Tatiana Pignataro (31), ginecologista obstetra que atua em consultório particular e faz plantão no Centro Hospitalar de Niterói (CHN).
Durante os plantões de Tatiana, ela observa que o número limitado de obstetras disponíveis — normalmente de dois a três por turno — impacta diretamente a qualidade da assistência prestada. Isso especialmente em casos de partos vaginais prolongados. No consultório, ela apenas faz assistência ao parto se a paciente tiver enfermeira. “A minha condição é essa, pois as chances dessa paciente conseguir parir aumenta muito, porque a enfermeira vai para a casa da paciente acompanhar se ela realmente está em trabalho de parto, realiza o toque para saber em qual estágio tá, e assim a paciente não procura o hospital antes da hora”, explicou.
“Quanto mais tempo a paciente consegue ficar em casa, mais chance de ela conseguir um parto vaginal”, destacou Tatiana.
“A realidade hoje é essa. Vou fazer uma analogia: se internar no hospital é como se hospedar em um hotel. Por exemplo, uma diária de hotel custa 500 reais. Você sabe que pode entrar após o meio-dia e precisa sair ao meio-dia do dia seguinte. A diária cobre o básico, como a luz e o café da manhã, mas se você quiser algo a mais, como um jantar, é pago à parte”, exemplificou Marcos Vinicius Martins (53), médico cardiologista e ex-diretor geral do CHN. No hospital funciona da mesma forma. Quando a paciente entra no quarto, o tempo já está sendo contado e chegarão outras pessoas para entrarem ali, nas próximas horas.
A cirurgia também é mais controlada, já é de conhecimento o tempo de execução, o período de internação e o valor que será pago, já que tudo é combinado previamente. Na cesariana, é necessário ter na equipe completa um obstetra, auxiliar, instrumentador cirúrgico, anestesista e pediatra. O médico destaca que em 40 minutos ou duas horas, o procedimento está concluído, diferente de um parto normal que pode levar oito ou mais horas. Considerando isso, não são todos os profissionais que estão dispostos a “ficar disponíveis por tanto tempo, com a remuneração atual. E o hospital precisa ‘hospedar’ as outras pessoas. É um cenário complexo, mas é a realidade”, esclareceu.
Renata Vidal (36), enfermeira obstétrica desde 2013, usa a frase “acompanhando nascimentos acolhendo, ouvindo e cuidando” nas suas redes sociais para caracterizar o seu trabalho. Ela acredita na importância do acompanhamento do enfermeiro especializado durante a gestação e no trabalho de parto, destacando a forma como isso pode ajudar as mulheres a enfrentarem esse momento com mais segurança e tranquilidade. “Durante a gravidez, além das consultas com o obstetra, algumas pacientes realizam três consultas com um enfermeiro especializado. Esse acompanhamento pode ser contratado diretamente ou indicado pelo médico, mas muitas mulheres não sabem que essa possibilidade existe”, disse.
A enfermeira obstétrica descreveu o atendimento durante o trabalho de parto como algo que exige atenção constante e flexibilidade. “Quando a gestante sente as primeiras contrações, ela entra em contato comigo. Avaliamos juntas se é o início ou se o trabalho de parto já está em andamento. No momento em que as contrações ficam mais ritmadas e intensas, vou até a casa dela”, explicou ela, acrescentando que, na residência da paciente, a enfermeira faz a avaliação dos sinais vitais, escuta o coração do bebê e faz o toque para verificar o progresso. “Se ainda estiver no começo, volto para casa e seguimos monitorando. Esse processo pode se repetir algumas vezes até o momento certo de ir ao hospital”.
“Sem orientação adequada, é comum que as gestantes procurem o hospital antes da hora. Isso pode levar a internações desnecessárias ou à sensação de frustração.”, explicou Renata. “No plantão, se a paciente ainda estiver na fase inicial do trabalho de parto, chamada de pródromos, é difícil que seja internada, mas, dependendo da situação, pode acabar passando por uma cesariana, especialmente se o quadro não evolui no tempo esperado”.
Priscila Alves (30), advogada e moradora de Niterói, iniciou seu pré-natal com a médica que a acompanhava desde a infância. A relação de confiança construída ao longo dos anos a motivou a escolher a ginecologista para realizar o parto de seu primeiro filho. Inicialmente inclinada à cesariana, ela passou a pesquisar diferentes opções de parto e, após entender as implicações do procedimento, decidiu priorizar o parto normal. Ao longo desse processo, Priscila perguntou à médica sobre a possibilidade de contratar uma doula. A resposta foi direta: “Para que você vai gastar dinheiro com isso? Eu já vou estar lá, fazendo tudo isso”.
O suporte de doulas durante o parto interfere na quantidade de serotonina liberada pela mulher no pós parto, de acordo com estudo realizado no Centro de Referência da Saúde da Mulher de Ribeirão Preto neste ano. A pesquisa feita pela psicóloga Eleonora de Deus Vieira de Moraes foi publicada
na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.
Foram divididos, para a pesquisa, dois grupos com gestantes. Um recebeu o apoio contínuo das doulas desde o início do trabalho de parto e o outro não teve esse auxílio, apenas do acompanhante de escolha da mulher. As voluntárias tiveram amostras de sangue coletadas durante as três fases da parturição: a ativa, a expulsiva e o pós-parto imediato (chamado também de “Golden Hour”, ou hora dourada). Isso com o objetivo de avaliar os níveis de serotonina em cada momento.
A serotonina é um neurotransmissor responsável por estimular o sistema nervoso central, regulando o humor e a motivação. No fim da gravidez, ocorre uma queda nos níveis de hormônios, o que pode impactar e alterar o humor da mãe, podendo resultar em uma depressão pós-parto. No estudo, a terapeuta disse que não foi possível fazer uma relação direta entre a alta concentração de serotonina no período “golden hour”. “Investigações futuras devem ser realizadas para avaliar a correlação entre as concentrações de serotonina no quarto período do trabalho de parto e os mecanismos relacionados com a depressão pós-parto”, conclui a pesquisa.
O estudo piloto do tema foi realizado como tese de mestrado da psicóloga, Pós-Graduação em Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto (SP). A pesquisadora, que atuou como doula por mais de 17 anos, decidiu investigar se a presença contínua de uma doula durante o trabalho parto poderia ter alguma influência fisiológica na gestante.
Tanto a enfermeira quanto a doula acompanham o parto em casa. A ideia é levar a gestante para a maternidade em uma fase mais evoluída da parturição. A diferença das duas profissões é que a primeira precisa ter formação específica, com faculdade e especialização na área da saúde. “Nós somos profissionais da área clínica, então realizamos toques, escutas e monitoramos os sinais vitais durante o trabalho de parto. Isso nos permite ter certeza absoluta sobre o estado da gestante quando vamos para a maternidade, garantindo que ela esteja em uma fase mais avançada e não seja internada antes da hora, o que acontece na maioria dos casos que vemos”, explicou Renata. “Como nós não temos formação técnica, a gente consegue ter um olhar muito único ali para a mulher, para as necessidades dela, coisas que às vezes, os profissionais técnicos estão ligados em outras coisas”, explicou Rebecca Figueiredo (31), doula e educadora perinatal.
Rebecca já acompanhou mais de 200 partos sendo doula e educadora perinatal há seis anos. “Eu sou mãe do Davi, que tem oito anos e ele foi o grande divisor de águas na minha vida pra eu entrar nesse meio”, explicou.
Durante a gravidez do filho, ela começou a pesquisar sobre a diferença entre a cesariana e o parto normal e descobriu que o Brasil é o segundo país que mais faz cesarianas no mundo. O país, em 2023, registrou uma taxa de 59%, segundo tabela do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC). Dessa forma, indo contra a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) que diz que a taxa ideal de cesariana deve estar entre 10 a 15%. Essa recomendação considera que, mesmo que o procedimento cirúrgico seja mais rápido e evita que a gestante sinta contrações, ele pode resultar em complicações significativas ou permanentes, como sequelas ou morte, materna ou do feto.“E aí a gente vai buscando informações, vai entendendo o porquê disso tudo. (...) E aí depois que eu tive o Davi, eu comecei a me interessar ainda mais por esse meio e decidi fazer o curso de doula”, lembrou Rebecca.
Para se tornar uma doula é recomendado, segundo a Associação de Doulas do Rio de Janeiro, que a profissional tenha Ensino Médio completo, carga horária mínima de 120 horas sendo, 80%, estudo teórico e, 20%, a prática vivencial. Para se associar, também é preciso que a doula siga o Regimento Interno e o Código de Ética. A profissional tem como objetivo amparar física, informacional e emocionalmente a gestante antes, durante e depois do parto normal. É ela quem, durante o nascimento do bebê, estará auxiliando a partir de métodos não farmacológicos, sugestões de posição, sugestão do que pode aliviar naquele momento e suporte emocional.
“Por mais que tenha dor [no parto normal], não significa que precise ser sofrido”, comentou a doula.
Antes do parto, Rebecca faz a educação perinatal não só com a gestante, mas também com o acompanhante dela. Assim, a doula esclarece para os dois sobre como será, o que pode ocorrer no parto e como é a situação brasileira em relação à parturição. Segundo ela, o papel dessa educação é ensinar a mulher a se proteger a partir do autoconhecimento, “ela poder na hora chegar e falar ‘Olha, mas isso não é indicação de cesariana’”.
“Eu brinco que o trabalho de parto é uma trilha que a mulher vai percorrer e a doula é aquela pessoa que está ali, que conhece aquela trilha, vai ensinar para a pessoa como que é aquela trilha. E se a mulher não tem doula, não tem uma boa equipe, ela vai ser jogada naquela trilha. Ela vai ter que sair do outro lado, se virar sozinha.”, exemplificou a educadora, acrescentando que a educação perinatal é a informação que a mulher vai ter para conseguir escolher o que quer ou não.
O médico, doutor em Saúde Coletiva e professor titular da Faculdade de Medicina da UERJ e Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna (56), concorda que a educação é fundamental para a diminuição das taxas de cesariana. Além disso, ele também enfatizou que o “pré-natal é um dos maiores fatores de proteção de uma boa evolução da gestação e de um parto adequado”.
Era um sábado quando Priscila estava na praia e sentiu a bolsa estourar. A primeira reação foi de susto, não só sua, como do marido. A advogada na mesma hora ligou para a própria médica, que a orientou que passasse em casa apenas para buscar suas coisas e seguisse ao hospital. “Eu cheguei no hospital sem dor, fui examinada pela equipe de triagem e ainda não estava com dilatação. A essa hora minha ginecologista já estava a caminho, e optaram por me internar. Poucas horas depois, ela [chegou e] optou por induzir e estava tudo ótimo. Mas não evoluiu, então fomos para cesariana” contou.
Durante o parto, a doula, por não ter uma formação técnica, não pode falar para o profissional de medicina ou enfermagem o que fazer ou não. Rebecca explicou que, com isso, começou a selecionar mais com quem trabalhará. “Sempre, quando vão pedir orçamento, pergunto [sobre] a equipe. Se for uma que conheço, que sei que tem uma fama ruim, eu tento falar com a mulher de uma maneira educada, não também dando uma rajada nela”, disse a doula.
Rebecca relembrou que as doulas precisam se lembrar que serão as portadoras de informação de muitas famílias. Ela também comentou que acha que será muito bom quando sair a Lei da Doula. “Vai dar uma certa filtrada, já que, por não ser uma profissão regulamentada, qualquer um pode criar um curso, dar ele e a pessoa, ao terminar as aulas, falar que é doula e não fornecer o melhor serviço”, esclareceu.
O Projeto de Lei 3946/21 (também conhecido como Lei da Doula) escrito pela vice-governadora, Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos e ex-senadora Mailza Gomes (PP - AC), já aprovado pelo Senado, está em análise na Câmara dos Deputados. O texto dá direito a presença da doula em qualquer tipo de parto, não excluindo a presença de um acompanhante de livre escolha da gestante e explicando que o papel das doulas é somente no acompanhamento e não podendo fazer procedimentos médicos.
“Eu sempre explico para as minhas pacientes que a enfermeira vai fazer toda a diferença no parto, são maiores as chances de você ter sucesso na via de parto que você deseja”, desabafou Tatiana, acrescentando que para considera essencial indicar uma enfermeira. “Um cenário ideal para mim seria que todas as mulheres pudessem ter [uma enfermeira]”.